terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PRESIDENTE VERDE NO BRASIL



Em novembro de 2002 ele previu a possibilidade de um dia o presidente do Brasil ser um "verde".
Em 2010 teremos eleições presidenciais no país e a candidata Marina Silva - no mínimo - já alterou os discursos do governador de São Paulo José Serra e da ministra Dilma Russeff.
Quem sabe a previsão de Antonio Odilon Macedo esteja para ser realizada?

Tendências com Antonio Odilon Macedo
Entrevista publicada no ANUÁRIO DE ECOLOGIA EXPRESSÃO de 2002.

"A NINHADA VERDE UM DIA FARÁ O PRESIDENTE DO BRASIL"

Nos últimos dez anos, Antonio Odilon Macedo conduziu e consolidou o Prêmio Expressão de Ecologia como uma das principais iniciativas de reconhecimento ao trabalho do setor privado do Sul do Brasil na área ambiental. Nesse período, o número de inscrições cresceu ano a ano – assim como a qualidade dos cases inscritos. Para Odilon, uma década após a Eco-92 e 30 anos depois da histórica Conferência de Estocolmo, as empresas paranaenses, catarinenses e gaúchas têm se adaptado muito bem à nova realidade, marcada pelo conceito de desenvolvimento sustentável. Algumas vezes, até, obtendo resultados acima da média nacional. Uma das boas notícias é que as ações de educação ambiental começam a dar resultados. Surge uma nova geração mais consciente e afinada com a sustentabilidade. “As crianças da Eco-92 serão adultos muito diferentes”, afirma. Como em todo o mundo, no entanto, a realidade regional não escapa à divisão das companhias em três grandes blocos: as que vão além do que a legislação exige, as que cumprem a lei com o rigor possível e, por último, as que ainda não chegaram ao século 21 – sérias candidatas à extinção, segundo ele. Diretor de meio ambiente da empresa de engenharia de infra-estrutura Prosul, Odilon se diz sociólogo por formação mas ambientalista por opção. E avalia, na entrevista a seguir, os progressos ambientais na região Sul, critica a legislação e avisa: ainda há muito por fazer quando se fala em meio ambiente.

EXPRESSÃO – Que lição ficou desses dez anos de coordenação do Prêmio Expressão de Ecologia?
Odilon Macedo – Acredito que o mais importante dessa nossa atividade nos últimos dez anos foi observar de perto as iniciativas ambientais das empresas. Nosso balanço, como observadores, é bastante positivo. A gente pôde constatar que as empresas do Sul do Brasil têm respondido satisfatoriamente a essa questão. E ido muito além da média nacional em alguns casos. Já tínhamos essa visão positiva em relação à capacidade de resposta do empresariado quando instituímos o prêmio. A edição da revista produzida especialmente para a Rio-92 já mostrava um conjunto de iniciativas despoluidoras desenvolvidas pelas empresas. Isso nos deu a certeza de que estava em curso um processo extremamente importante de incorporação da gestão ambiental na política das empresas.

Analisando os mais de 700 cases inscritos nesses 10 anos o que se
pode concluir?
Podemos constatar que saímos de um estágio no qual as empresas simplesmente tomavam iniciativas de adequação à legislação ambiental. Era um momento de postura reativa. Num segundo momento, elas partiram para uma postura de gestão ambiental, na qua era considerado o conjunto do processo de produção. Essa fase foi muito incentivada pela regulamentação da ISO 14000. E num terceiro momento, que estamos observando agora, o foco volta-se para a produção mais limpa, dentro da concepção de sustentabilidade ambiental.

O problema dos efluentes industriais está resolvido no Sul do Brasil?
Não. Seguramente não resolvemos essa questão. Esses dez anos nos colocaram de modo irreversível no rumo do tratamento adequado dos efluentes. Mas é preciso que tenhamos consciência de que convivemos no Sul com um parque industrial em diversos estágios. Há um grupo de empresas que hoje tem essa questão controlada e que, em alguns casos, vai muito além da própria exigência da legislação. Temos um outro grupo de empresas, de porte médio, com mercado essencialmente nacional, que começam agora a dar os primeiros passos do enquadramento legal e da implantação do sistema de tratamento. E temos o terceiro grupo de empresas, que infelizmente ainda permanece descumprindo as normas ambientais – e que no meu ponto de vista não vai sobreviver. Em sua maioria, elas fazem parte do setor extrativista. Vale ressaltar que essa atividade é perfeitamente compatível com a preservação ambiental, mas carece de uma mudança de mentalidade dos empresários. Quando falei do segundo grupo, que hoje está se adequando, é importante destacar que a consciência ambiental do consumidor brasileiro, e particularmente do consumidor daqui do Sul do Brasil, está avançando rapidamente, tendo uma postura pró-ativa na valorização de produtos ecologicamente corretos. A resposta tem sido rápida. Nós temos inúmeros casos de empresas que não exportam mas são gestores ambientais, apostando no mercado interno, com um grande diferencial competitivo.

Qual a importância da ISO 14000 na geração dessa consciência? Alguns ambientalistas criticam a estrutura da ISO, dizendo que ela posterga a solução dos problemas, uma vez que a ISO 14001 é apenas um protocolo de intenções.
Eu não concordo. A ISO 14000 é o seguinte: ao estabelecer esse protocolo, a empresa se compromete a fazer mudanças no trato ambiental. Agora, se ela não cumprir os prazos, se as auditorias que são programadas periodicamente não constatarem que a empresa já tem uma resposta a essas questões, às metas estabelecidas, ela perde a certificação. Acredito que todos os empresários têm isso claro. O impacto da perda da certificação em termos de marketing é superior ao impacto da obtenção dessa certificação.

"É importante destacar que a consciência ambiental do consumidor brasileiro, e particularmente do Sul do Brasil, está avançando rapidamente"

Então esse é um caminho sem volta?
Sem volta e que pode se tornar extremamente perigoso. As instituições certificadoras são muito rigorosas e têm alertado constantemente para esse risco. A política da empresa é muito bem avaliada para a concessão da certificação. No Sul do Brasil nós temos observado que as empresas detentoras da certificação estão investindo pesado para mantê-la. Muitos empresários procuram atender mais de 80% das exigências que seriam feitas para o enquadramento ambiental antes mesmo de entrarem no processo de certificação. Conversando com alguns grandes empresários catarinenses, premiados antes mesmo da certificação, indaguei o porquê de a empresa não buscar o certificado. A resposta é unânime: “Nós temos consciência de que ainda precisamos avançar muito nesse e naquele ponto para depois entrar num processo de certificação. Com a atual competitividade, não podemos correr riscos”. Existe uma certa prudência em relação à ISO 14000.

Como tratar a questão dos recursos naturais não-renováveis?
A dedicação para uso considerado nobre é uma saída?
É. Mas também é importante salientar que esse conceito de produto renovável e não-renovável vem mudando. A água é um recurso não-renovável e sem substituição. Por isso, essa questão dos recursos não-renováveis começa pela água. Porém, nem sempre ela é um recurso não-renovável. Esse é o principal ponto. E em relação aos outros recursos chamados não-renováveis, temos que procurar ser mais responsáveis no uso desses recursos, procurando substituição de materiais. E mesmo os chamados recursos naturais renováveis merecem um questionamento: são renováveis em qual tempo? A floresta é um recurso natural considerado renovável. Tanto a fauna como a flora são considerados basicamente recursos naturais renováveis. Aliás, a biodiversidade também poderia teoricamente ser considerada renovável. Em tese. Mas nós não temos domínio tecnológico para isso. Estamos destruindo hoje parte da biodiversidade que nem conhecemos. Então, teríamos de reconvocar Deus para fazer essa tarefa. Por isso precisamos buscar a sustentabilidade o quanto antes. Para isso, a primeira coisa a fazer é conhecer, saber as características e até mesmo, numa linguagem econômica, manter estoque desses recursos.

A coleta seletiva e a reciclagem do lixo aumentam a cada ano, porém a reciclagem do lixo inorgânico não acompanha os mesmos índices. Por quê?
Primeiro, nós temos que rever uma questão. O grande problema do lixo ainda é o destino final para os resíduos, aquela parte do lixo que não é passível de reciclagem e nem mesmo de compostagem orgânica para uso agrícola. A prioridade tem sido, principalmente nas cidades médias e grandes, a destinação final e a implantação de aterros. Num segundo momento, acho que já existe um investimento na coleta seletiva, que deve ser ampliado. Ela deve ser acompanhada por um grande trabalho de conscientização, porque até agora evoluímos pouco em matéria de coleta seletiva, que propicia uma ma-ior reciclagem. E a compostagem deverá ser aos poucos ampliada e ter uma estrutura mais adequada. Quando você vai pensar em um sistema de gerenciamento de resíduos sólidos de uma cidade, primeiro é importante ter claro que você precisa de um ponto onde possa dispor os resíduos sem provocar impactos ao meio ambiente. A partir do momento em que você está trabalhando com aterro sanitário, tendo uma garantia da disposição final, fica mais fácil desenvolver uma agregação de valores ao sistema e incorporar as técnicas de compostagem, que exigem um maior investimento, uma maior estrutura e acompanhamento técnico permanente.

Como está o mercado das empresas que prestam serviços de engenharia ambiental?
É um mercado bastante promissor, que está crescendo muito em todo o Brasil. As empresas especializadas têm tido um crescimento da ordem de 80% a 100% ao ano, o que resultou numa enorme carência de técnicos. Paralelamente, a qualidade dos serviços também vem crescendo. Os setores que mais procuram esses auxílios são as indústrias e as obras de infra-estrutura, que exigem hoje uma assessoria e um tratamento ambiental adequados.

Por que as empresas se dedicam à educação ambiental, interagindo muitas vezes entre elas, ao contrário do que acontecia há alguns anos?
As empresas perceberam que não podem empreender uma ação ambiental isoladamente. O bom resultado de qualquer ação ambiental depende do envolvimento de toda a comunidade. Vamos pegar como exemplo uma empresa que tem gestão ambiental, que trata os efluentes, cuida da água. Se essas ações forem isoladas, se toda a comunidade daquela bacia hidrográfica não estiver envolvida, elas podem ser prejudicadas. Isso não é só em relação à água, mas envolve todo meio ambiente, em qualquer situação. Sempre há essa necessidade de colaboração com os demais agentes sociais. Isso envolve a comunidade, outras empresas, o poder público. Não tem sido incomum, por exemplo, os órgãos de controle ambiental serem cobrados por empresários que investiram no meio ambiente, exigindo o mesmo de outras empresas.

"Observamos nos últimos cinco anos o crescimento da preocupação em preservar o meio ambiente, com grandes investimentos"

Que importância tiveram e têm as ONGs nessa caminhada ambiental?
As ONGs têm um papel importante, primeiramente, na denúncia. Mas não apenas fazem esse trabalho de controle social, como também têm buscado a profissionalização. Temos observado que as ONGs são agentes mais ativos no trabalho de educação ambiental, no trabalho de conservação de recursos naturais e, muitas delas, inclusive, na assessoria técnica. Muitas vezes você cobra do empresário uma nova postura e ele até é receptivo mas não sabe como agir. Embora esse papel não seja de responsabilidade das ONGs, elas têm conseguido resultados excelentes no assessoramento técnico.

A legislação brasileira atende as necessidades ambientais?
Na legislação brasileira nós temos que entender o seguinte: costuma-se dizer que os problemas ambientais brasileiros são decorrentes da falta de leis. Isso é uma meia-verdade. Nós temos as leis. Porém elas exigem um aperfeiçoamento. Hoje nós percebemos que há uma grande necessidade de que a legislação seja mais articulada, com objetivos e políticas ambientais mais claros. Hoje nós vemos um emaranhado complicado de leis, que não satisfazem nem os próprios órgãos ambientais. Pelo contrário, chega a confundi-los. A lei hoje é suficiente para impedir uma agressão mas deficiente para possibilitar uma atitude positiva na sociedade e pró-ativa dos empresários.

A Rio + 10, realizada na África do Sul para levar adiante os temas tratados na Eco-92, trouxe avanços?
Eu acredito que a conferência de Johanesburgo deve ser entendida dentro da conjuntura política e econômica internacional. Essa conjuntura não era favorável. Apesar disso, a conferência trouxe inúmeras propostas positivas. Nós continuamos avançando. A questão ambiental continua no centro da discussão. A conferência deu coesão ao grupo de países que já assumiu uma postura de defesa ambiental, de conservação da biodiversidade, de redução da poluição atmosférica. Houve uma continuidade na articulação do bloco que começou na Rio-92. A conferência manteve a esperança e o otimismo, porque mesmo em países como os Estados Unidos as pressões internas também são muito fortes, de modo que eles não conseguirão sustentar essa posição intransigente por muito tempo. O meio ambiente não é uma ideologia. Quando nós falamos da questão ambiental, nós nos referimos a um mundo com objetivos públicos, à continuidade da vida no planeta.

Quais são os maiores desafios hoje?
Acho que todos os assuntos estão intimamente relacionados, não dá para separar e analisar individualmente. Mas acredito que a questão mais grave entre todas, inegavelmente, é a fome. Eu não consigo imaginar que a espécie humana possa ter uma relação mais racional com a natureza se não atingir uma relação mais racional consigo mesma. É um processo autodestrutivo da própria espécie, acentuado pela fome e pela guerra. Se não superarmos esses obstáculos, não teremos capacidade para enfrentar os desafios em relação ao meio ambiente.

"Não consigo imaginar que a espécie humana possa ter uma relação mais racional com a natureza se não a tiver consigo mesma"

E as principais vitórias?
A principal vitória foi a consciência ambiental. Se na Conferência de Estocolmo, em 1972, nós tínhamos apenas um grupo de intelectuais – o Clube de Roma – e mais meia dúzia de grupos privilegiados e melhor informados, que estavam alertando para a problemática ambiental, hoje essa questão está globalizada. É uma conseqüência do processo. Hoje nós temos uma consciência ambiental global. Aqui no Sul, em qualquer bairro, em qualquer cidade, nós vamos encontrar agentes ativos, preocupados e combativos na luta pelo meio ambiente. A consciência ambiental disseminou-se. Acredito que essa tenha sido a principal mudança e a maior das vitórias. Hoje você pode ir numa escola no interior de Guaraciaba, no Oeste catarinense, e conversar com as crianças sobre as questões que estavam sendo debatidas na África do Sul. Por isso a transformação será inevitável. Essas crianças serão, e já são, consumidores. Um dia serão eleitores. E vão ser agentes ativos dessa transformação. A grande mudança de mentalidade já ocorreu. As crianças da Rio- 92 serão adultos muito diferentes. Se me permite a expressão, a ninhada verde já cresceu. E será o empresário, o consumidor e também o presidente da república. Pode ser um sociólogo ou um torneiro mecânico.

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